O entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda sustenta sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, e o ex-presidente Jair Bolsonaro saiu em defesa do filho após a divulgação do áudio em que ele pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. Nos bastidores, porém, integrantes da campanha admitem preocupação com o avanço das investigações e com o potencial de desgaste político do caso nos próximos meses.
Pessoas mais próximas ao senador afirmaram ao R7 que a intenção continua sendo preservar sua candidatura e dizem não haver, neste momento, outro nome consolidado para substituí-lo. Também ressaltam que uma eventual troca “não é desejo” do ex-presidente.
A avaliação é de que houve, sim, estrago, mas que, “com a competência do senador”, isso será apenas “um mal-entendido”.
Nos bastidores, porém, integrantes do partido estão em dúvida. O principal motivo é que Flávio sempre adotou um discurso crítico em relação ao Banco Master e às suspeitas envolvendo Vorcaro, sem mencionar a aliados mais próximos que havia mantido algum grau de contato com o empresário por causa do filme.
A revelação do conteúdo dos áudios surpreendeu interlocutores do senador e passou a ser discutida no “QG eleitoral”, além de gerar questionamentos ao presidenciável.
Embora aliados mais próximos tentem minimizar o impacto, há uma avaliação de que o episódio produziu desgaste político e abriu uma crise que ainda precisa ser administrada. A pré-campanha monitora com apreensão os desdobramentos do caso e discute estratégias para reduzir os danos políticos.
Entenda o caso
Nessa quarta-feira (13), áudios que constam em conversas entre o senador e Vorcaro vieram à tona. O R7 obteve acesso a uma das mensagens de voz, na qual Flávio revela uma certa intimidade com o empresário ao chamá-lo de “irmão”.
Em nota divulgada à imprensa, o senador admitiu que foi atrás de Vorcaro em busca de financiamento para a produção do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas negou qualquer tipo de favorecimento político ou relação de “camaradagem” com o banqueiro.
O vazamento da gravação pode gerar um desgaste político mais simbólico do que jurídico, avalia o professor de ciência política da UFPI (Universidade Federal do Piauí) Elton Gomes.
Segundo o cientista político, o principal impacto do episódio está na possível corrosão da narrativa construída historicamente pelo bolsonarismo em torno do combate à corrupção e da crítica às elites políticas e econômicas.
“Do ponto de vista estritamente jurídico e institucional, manter relações pessoais, empresariais ou sociais com um banqueiro ou empresário não constitui crime em si. O problema político para Flávio Bolsonaro, principal candidato da oposição, é outro”, afirmou o especialista.
De acordo com Gomes, o grupo político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro consolidou sua identidade pública com base no discurso antipetista, na defesa do combate à corrupção e na rejeição às chamadas “velhas práticas” da política tradicional.
Para ele, a associação com um personagem que enfrenta desgaste público pode abalar essa construção simbólica.
“Quando surgem áudios e relatos que aproximam o senador de um personagem que caiu em desgraça pública como Daniel Vorcaro, o dano potencial é sobretudo simbólico e reputacional. Não necessariamente porque haja comprovação de ilegalidade direta, mas porque isso fragiliza aquilo que a gente chama na ciência política de coerência discursiva da narrativa bolsonarista original”, disse.




