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Política Domingo, 29 de Março de 2026, 09:13 - A | A

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Ministério Público de MT é investigado sob suspeita de receber patrocínio do agro

Da Redação

O ex-procurador-geral de Justiça Deosdete Cruz Júnior, segundo à esquerda, homenageando o presidente da Aprosoja (ao centro), Lucas Costa Beber, pela parceria no projeto Diálogos com a Sociedade, em novembro de 2024.

Conforme divulgado pelo portal de notícias da Folha de São Paulo, o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) abriu investigação para apurar pagamentos que totalizam R$ 2,7 milhões por empresas e entidades ao Ministério Público de Mato Grosso de 2024 a 2025 para projeto de entrevistas. Entre elas, estão empresas do agronegócio e do setor madeireiro investigadas pelo próprio órgão. 

Na denúncia que motivou a investigação, é afirmado que as doadoras disputam em processos judiciais como partes contrárias ao Ministério Público em ao menos oito casos e seis inquéritos civis, o que configura conflito de interesse, no entendimento do procurador responsável pela ação. Não há, porém, citação de benefício identificado às empresas doadoras. 

Em nota, o Ministério Público de Mato Grosso afirma que a AMMP (Associação Mato-Grossense do Ministério Público) é quem recebe os aportes financeiros para as campanhas de interesse da sociedade e que o projeto "observa rigorosamente os princípios da transparência e da responsabilidade institucional" e não implica "qualquer conflito de interesses". 

A AMMP diz ainda que as contas da ação foram aprovadas. Procurados, os doadores afirmaram que participam de projetos em favor da sociedade e que observam critérios de conformidade, legalidade e transparência. 

A denúncia, feita pelo ex-procurador-geral de Justiça José Antônio Borges Pereira, indica que a AMMP recebeu dinheiro de doações e utilizou o recurso em um projeto institucional do Ministério Público chamado de Diálogos com a Sociedade. 

Na iniciativa, são realizadas rodadas de entrevistas com promotores e procuradores em uma "bolha" de vidro instalada em um shopping de Cuiabá. 

A construção da estrutura custou R$ 268 mil, feita pela D’Lux Empreendimentos LTDA, sem licitação, conforme a denúncia. As entrevistas aconteceram inicialmente às quintas e, depois, quinzenalmente, de 2024 a 2025. 

O projeto recebeu doações de empresas bilionárias do agronegócio como a Amaggi, do ex-governador Blairo Maggi, e da Bom Futuro, que pertenceu ao seu primo Eraí Maggi. De 2024 a 2025, a Amaggi doou R$ 143 mil, e a Bom Futuro, R$ 44 mil. Procuradas, as empresas não se manifestaram. 

A maior doadora foi a Aprosoja-MT (Associação de Produtores Rurais de Soja e Milho de Mato Grosso), que forneceu R$ 630 mil. Também patrocinaram o projeto a Ampa (Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão), com R$ 123 mil, e o Cipem (Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso), com R$ 35 mil. 

"A prática adotada para execução do projeto institucional revela nítido conflito de interesse entre o MPMT e as empresas patrocinadoras do projeto, especialmente aquelas que abrangem construção civil e esfera ambiental, visto ser de conhecimento público as diversas medidas judiciais e extrajudiciais adotadas", diz a denúncia. 

Pereira cita a Aprosoja como um dos exemplos em que considera haver conflito. Ele relata que foi procurado pela entidade quando chefiava o órgão para ouvir reclamações sobre a atuação de uma promotora que conduzia investigação sobre irregularidades ambientais suspeitas de terem sido praticadas pela associação. 

Outro caso narrado por Pereira é o de empresários da construção civil que apontaram dificuldades em iniciar empreendimentos em razão do projeto Águas Para o Futuro, criado por um procurador para identificar e proteger nascentes no perímetro urbano das cidades. Empresas do setor também foram doadoras. 

Após receber a denúncia, o conselheiro Clementino Augusto Ruffeil Rodrigues notificou o atual procurador-geral de Justiça, Rodrigo Fonseca, para que apresente manifestação no processo. 

Além de companhias do agronegócio e da construção civil, um bar, restaurantes, um banco e até uma academia fizeram doações. Pereira diz ter encontrado ainda 11 doações sem identificação nominal, que somam R$ 127 mil. 

No caso da Aprosoja, o procurador identificou doação de R$ 400 mil sem menção à entidade, que só foi possível de ser identificada após cruzamento de documentos e dados da prestação de contas do projeto. 

Concessionárias de serviços como a Nova Rota do Oeste, que cobra pedágio na BR-163, e a Águas Cuiabá, de água e esgoto na capital, doaram R$ 256 mil e R$ 108 mil, respectivamente. Da Energisa Mato Grosso, de energia elétrica, foram R$ 256 mil. 

Outros lados 

Em nota, a Procuradoria diz que o Diálogos com a Sociedade não compromete "a atuação institucional do Ministério Público, que preserva sua independência funcional e imparcialidade em todos os seus procedimentos". 

Procurado, o presidente da AMMP, o promotor Milton Mattos da Silveira Neto, afirmou que as contas do projeto são de responsabilidade do ex-presidente, o procurador Mauro Benedito Pouso Curvo. Silveira Neto afirmou, no entanto, que a assembleia geral da AMMP aprovou as contas da gestão Curvo.

"A AMMP tem por escopo a promoção do nome do Ministério Público, e o projeto Diálogos faz justamente isso: leva assuntos de interesse da sociedade como violência doméstica, abusos sexuais e outros ao conhecimento da população", afirmou o presidente. A reportagem procurou também Curvo, que não respondeu. 

Cipem e a Ampa não se manifestaram. O Iagro (Instituto Mato-grossense do Agronegócio), que representa a Aprosoja no Diálogos com a Sociedade, por sua vez, disse em nota que a participação em projetos é prevista em estatuto. 

"O projeto está alinhado às finalidades estatutárias e legais do Iagro, ao promover a aproximação entre instituições e sociedade, disseminar informações de utilidade pública e fomentar o debate sobre temas de relevante interesse social, como a violência contra a mulher, a assistência ao público idoso e a proteção ao meio ambiente".

A concessionária Nova Rota do Oeste afirmou que todas as suas iniciativas seguem critérios técnicos, de governança e de conformidade, observando as orientações dos órgãos de controle. 

Energisa disse que as doações foram feitas sem qualquer contrapartida. "A companhia reafirma que sua eventual participação em iniciativas institucionais ou de interesse público observa critérios de conformidade, legalidade e transparência." 

A Águas Cuiabá afirmou que aderiu ao projeto ao avaliar a importância dos temas abordados. "A empresa ressalta que pauta suas ações em rigorosos processos de governança e compliance." 

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