O Banco Master declarou ao menos R$ 41,7 milhões em pagamentos para políticos, dirigentes partidários, ex-ministros e um ex-presidente em 2025, mostram documentos da Receita Federal . Os valores constam na declaração apresentada à autarquia pela instituição financeira de Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraudes.
Temer: atuação na tentativa de venda
Um dos presentes na lista é o ex-presidente Michel Temer. De acordo com o documento do Master enviado à Receita, o escritório de advocacia do emedebista recebeu R$ 10 milhões pelos serviços prestados em 2025.
Temer foi contratado por Vorcaro para atuar na tentativa de venda do Master ao BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. À época, o governador era Ibaneis Rocha, também do MDB — ele deixou o cargo há duas semanas para concorrer ao Senado.
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em novembro no ano passado, Temer disse que seu trabalho como advogado inclui pareceres e mediações. No caso do Master, ele contou que foi chamado por Ibaneis e pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, para uma reunião em Brasília.
"E eu fui para Brasília, estava lá uma reunião, estava o Daniel Vorcaro. E o governador Ibaneis me disse: 'Nós queríamos que você fizesse uma mediação, que nós ainda temos interesse em manter essa negociação, embora mais restrita, em face do que está acontecendo'. Então, foi assim que eu fui contratado. para fazer uma mediação. É o que eu estou fazendo".
Na ocasião da manifestação, o Banco Central já havia rejeitado a transação entre Master e o BRB, mas a instituição de Vorcaro buscava alternativas. Em nota, Temer afirmou que o escritório foi "contratado para atividade jurídica de mediação. O valor recebido não é o de 10 milhões, mas de R$ 5 milhões mais 2,5 milhões".
Mantega levou Vorcaro a Lula
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuou nas gestões anteriores de Lula e no governo Dilma, recebeu R$ 8 milhões em 2025 via empresa de consultoria, segundo as informações prestadas pelo Master.
No período em que trabalhou para Vorcaro, Mantega tentou aproximar o Master do governo federal e chegou a levar o banqueiro para uma reunião com Lula no Palácio do Planalto, no fim de 2024. Lula voltou a dizer em entrevista nesta quarta-feira que disse ao banqueiro na ocasião que, se houvesse irregularidades no Master, elas seriam investigadas.
Lewandowski: consultoria
Durante 2025, a declaração de Imposto de Renda do Banco Master também registra o pagamento de R$ 2,3 milhões ao escritório de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e ex-titular da Justiça de Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com a colunista Malu Gaspar, o contrato teria se iniciado em 2023, como consultoria institucional do próprio Lewandowski e, depois de sua saída do escritório para assumir o Ministério da Justiça, o contrato foi transferido para seu filho, Enrique Lewandowski, que passou a dar consultoria sobre assuntos fiscais e tributários.
Em nota, Lewandowski disse que retornou às atividades de advocacia em abril de 2023, quando deixou a Corte. "Além de vários outros clientes, prestava serviços de consultoria jurídica ao Banco Master", diz o texto.
A nota acrescenta que em janeiro de 2024, quando assumiu o Ministério da Justiça, ele deixou o escritório que tem em sociedade com familiares e suspendeu o registro de advogado, como "determina a legislação vigente".
Já Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central no governo Lula e ministro da Fazenda de Temer, também atuou no Master e recebeu R$ 8 milhões pelos serviços.
A folha de pagamentos do Master incluiu também ex-auxiliares de Bolsonaro, como o ex-titular da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência Fabio Wajngarten, que também é advogado, e o ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento. A empresa de Wajngarten recebeu R$ 3,8 milhões, enquanto a firma que tem Bento como sócio ficou com R$ 6,2 milhões.
Procurado, Wajngarten afirmou que foi convidado a integrar a defesa do caso há cerca de um ano e, desde então, presta "serviços regulares" e "devidamente declarados". Ele informou, contudo, não ter procuração para atuar no processo.
Conexões com o União Brasil
No caso de Antonio Rueda, presidente do União Brasil, há o valor de R$ 1 milhão. Em março, ele já tinha admitido que havia prestado serviços de advocacia para o Master. Segundo ele, teria feito dezenas de pareceres e centenas de reuniões. Rueda, entretanto, não tinha revelado os valores dos serviços prestados.
Em nota publicada à época, o líder do União Brasil afirmou que o serviço representava “atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país”, que atuou “em caráter estritamente técnico” e “sempre se deu dentro dos mais rigorosos padrões legais e éticos da advocacia”.
Foi revelado também revelou em março o pagamento do Banco Master a uma empresa de consultoria em nome do ex-prefeito de Salvador ACM Neto. Os dados da Receita Federal apontam o pagamento de R$ 1,8 milhão ao ex-prefeito por meio de sua empresa de consultoria em 2024. Segundo alerta enviado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), entre março de 2023 e maio de 2024, a companhia recebeu R$ 3,6 milhões do Master.
O ex-prefeito de Salvador disse na época que, quando já não exercia qualquer cargo público, constituiu a empresa e, a partir de então, prestou serviços a alguns clientes, dentre eles o Banco Master e a Reag.
A empresa de ACM Neto "informa que não pode validar os valores" por não ter tido acesso aos dados.
"Importante destacar que a referida relação comercial foi firmada sem que qualquer dos sócios da A&M ocupasse cargo público à época da formalização e execução do contrato. Imperativo relembrar que foi apresentada petição à PGR e ao STF na qual a A&M se coloca à disposição para prestar eventuais esclarecimentos e detalhes dos serviços prestados, assim como requereu que se apurasse o vazamento de dados fiscais sigilosos".
"Isto sempre ocorreu com contratos formais, com o devido recolhimento de impostos e trabalhos de consultoria efetivamente executados, notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional, e materializados em diversas reuniões com o corpo técnico e jurídico dos contratantes", afirmou o ex-prefeito de Salvador.





