Pedro Taques sentou diante dos senadores na manhã desta terça-feira (25), na 15ª reunião da CPI do Crime Organizado, e fez o que vinha prometendo há meses: detalhou com nomes, CPFs, CNPJs e slides o caminho que, segundo ele, R$ 308 milhões do erário de Mato Grosso percorreram desde o caixa do Estado até empresas ligadas ao filho e a aliados do governador Mauro Mendes. Mas não parou aí. Taques ampliou o escopo das acusações e apresentou dois eixos que, até então, não faziam parte do debate público sobre o caso: o conflito de interesses na concessão da BR-163 envolvendo a gestora REAG, apontada pela Polícia Federal como lavadora de dinheiro do PCC, e a atuação predatória de consignatárias satélites do Banco Master contra 45 mil servidores públicos mato-grossenses.
O depoimento durou horas. Taques falou na condição de testemunha compromissada. Mendes, que na véspera havia comemorado o parecer do Ministério Público estadual pelo arquivamento da ação popular e chamado o rival de "Pedro Pinóquio", não se pronunciou após a sessão.
Como tudo começou: servidores endividados e um banco onipresente
Taques contou que a história que o trouxe ao Senado não começou pela Oi, mas por um telefonema. Em novembro de 2024, presidentes de sindicatos de servidores públicos de Mato Grosso o procuraram. Os trabalhadores estavam sufocados por consignados. Ele foi contratado por oito sindicatos e pela federação estadual para investigar. A procuração cobre 106 mil servidores.
O escritório de Taques puxou o fio e encontrou o Banco Master do outro lado. As consignatárias que atormentavam os servidores não tinham autorização do Banco Central. Operavam como "satélites" do Master: vendiam crédito ao banco, que inflava suas contas com ativos que Taques chamou de "podres", contratos de 90 a 120 prestações, cobrados de gente que sequer sabia com quem havia assinado.
A evolução foi rápida. De 2003 a 2015, os consignados funcionavam com margem de 30% e juros entre 1,7% e 2,2%. A partir de 2022, a margem em Mato Grosso subiu para 60%, a segunda maior do país, atrás apenas da Bahia (65%). Os juros saltaram para 4,7% a 5,5%. E o Master multiplicou seus contratos de 104 mil, em 2022, para 2,7 milhões em 2024, puxado por essas consignatárias irregulares.
"Minha mãe é servidora aposentada, tem 90 anos, é professora", disse Taques aos senadores. "Quando eu comecei a mexer com isso, ela me ligou: Zé, eu estou com vergonha, eu também tenho consignado, estou quebrada."
Dos 106 mil servidores do Estado, 45 mil carregam consignados com essas entidades. Uma única consignatária deixou de descontar R$ 15 milhões por mês durante nove meses, por liminar obtida pelo escritório de Taques. Quase R$ 150 milhões ficaram no comércio local nesse período. Em 28 de dezembro de 2025, um juiz determinou que os descontos fossem retomados, mas depositados em conta administrada pelo Judiciário, até recálculo completo.
O acordo: R$ 80 milhões viram R$ 308 milhões em 13 meses
O enredo é o seguinte. Em 2009, Mato Grosso executou a Oi por diferencial de alíquota de ICMS. Penhorou valores. Em 2020, o STF julgou inconstitucional a lei que fundamentava a cobrança. A Oi, então em recuperação judicial, ajuizou ação rescisória em 9 de novembro de 2022, atribuindo ao crédito o valor de R$ 301 milhões.
Um ano depois, em outubro de 2023, a Oi vendeu esse crédito ao escritório Ricardo Almeida Advogados por R$ 80 milhões (atualizados para R$ 82,3 milhões). O advogado que conduziu a compra virou desembargador pouco depois, pelo quinto constitucional. Taques mencionou isso na CPI sem rodeios: "Esse advogado, antes do pagamento, cede este recurso para dois fundos. Se ele não tivesse feito isso, se fosse depositar na conta do escritório, eu nunca saberia, porque precisaria do sigilo bancário."
Em dezembro de 2023, o escritório propôs ao Estado um acordo estimando a dívida em R$ 583 milhões. O governo pagou R$ 308 milhões.
Taques detalhou na CPI a velocidade do trâmite. Em 20 de dezembro de 2023, o pedido foi protocolado na PGE às 17h35. Às 17h58, já estava com o governador. Vinte e três minutos. Taques disse ter "metaprova" disso: metadados do sistema eletrônico, que são públicos.
Uma ordem de serviço foi emitida para três procuradores. Nenhum deles assinou o acordo. Chamaram uma especialista. A especialista também não assinou. O cálculo não saiu do Departamento de Cálculo da PGE, que Taques diz ter criado quando era governador. Foi feito pelo próprio procurador que conduzia o caso.
O acordo, assinado em 10 de abril de 2024, foi homologado no dia seguinte pelo desembargador Mário Kono, sob segredo de justiça. Não foi publicado no Diário Oficial.
O dinheiro: sete fundos, uma cascata e nomes conhecidos no fim da linha
Os R$ 308 milhões não foram depositados em conta bancária convencional. Foram para dois fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) criados pelo Banco Master em 22 de fevereiro de 2024, quarenta dias antes da assinatura do acordo. O Royal Capital recebeu R$ 154 milhões. O Lotte Word, outros R$ 154 milhões.
A partir daí, segundo Taques, o dinheiro entrou numa cascata. Os dois fundos compraram cotas de outros fundos. Taques nomeou cinco intermediários na CPI: Golden Bird FIDC, Coliseu FIDC, Venture Finance, GS Heritage FIM e 5M Capital FIP. Todos administrados pelo Banco Master. Todos registrados na CVM.
No fim da cascata, segundo a denúncia, o dinheiro chegou a empresas de gente próxima ao governador. A Sollo Energia e a Minerbras Mineração pertencem a Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro Mendes. Taques afirmou que a Sollo recebeu R$ 100 milhões em debêntures do fundo Venture Finance e a Minerbras, R$ 19 milhões em notas promissórias. A Global Hotéis, de Robério Garcia, pai do chefe da Casa Civil Fábio Garcia, teria sido outra beneficiária. Robério aparece como cotista do fundo Lotte Word nos registros da CVM.
"Eu não tenho culpa de ter encontrado isso", disse Taques. "Está lá, é minha obrigação, defendendo com muita honra 106 mil servidores."
O método, ele explicou, foi simples. O Conselho Monetário Nacional obriga que fundos de investimento depositem contabilidade, auditorias e movimentação de cotas na CVM. Tudo público. Taques e sua equipe analisaram 12 mil documentos, começando pelos fundos do Master filtrados para Mato Grosso, desde maio de 2025. Não houve quebra de sigilo bancário, porque advogados não têm essa prerrogativa. CPIs e juízes têm.
O relator Alessandro Vieira fez questão de separar duas discussões: a legalidade do acordo, que está judicializada, e o destino dos recursos. "O que interessa para essa comissão, fundamentalmente, é a etapa seguinte, é o que é feito com este valor", disse.
O outro lado: o que disseram Mendes, a PGE, o TCE e o MPMT
Mauro Mendes se pronunciou sobre o caso em diversas ocasiões desde maio de 2025. O argumento central é que o acordo gerou economia de R$ 392 milhões, comparando os R$ 308 milhões pagos com a dívida atualizada de R$ 690 milhões.
O Tribunal de Contas do Estado aceitou a denúncia de Taques em fevereiro de 2026, abriu investigação, mas concluiu que a transação "foi conduzida com alto grau de transparência e responsabilidade". O deputado Wilson Santos, que acompanhou o caso, ressalvou que, sem juros, o acordo poderia ter custado R$ 220 milhões, mas considerou o valor final "adequado".
O Ministério Público estadual foi mais longe: pediu o arquivamento da ação popular em 21 de março de 2026. O subprocurador Marcelo Ferra argumentou que os procuradores da PGE não sabiam do valor de cessão e que o lucro do intermediário privado "não resultou em prejuízo ao Estado".
A PGE emitiu nota oficial classificando as denúncias de Taques como "má-fé processual ou incompetência jurídica". Defendeu que o sigilo era regra da Câmara de Consenso e que o acordo "preservou os princípios da legalidade e vantajosidade". Sobre a não publicação no Diário Oficial, o procurador-geral Francisco Lopes admitiu a falha na ALMT, mas afirmou que o documento constava no site da PGE.
Entre os procuradores, a fala mais significativa veio do subprocurador Leonardo Vieira de Souza, na oitiva de 11 de fevereiro na Assembleia Legislativa: "Se o cidadão comprou por 80 milhões, eu não sabia. Eu até ouso dizer que, se eu soubesse, eu ia ter apertado muito mais para fazer o acordo muito menor." Na prática, a declaração reconhece que o desconhecimento sobre o valor da cessão limitou a capacidade de negociação do Estado.
Sobre os fundos, Mendes foi categórico na coletiva de 11 de fevereiro no Palácio Paiaguás: "Estes fundos não têm nada a ver comigo, não têm nada a ver com a minha família, não têm nada a ver com Fábio Garcia. Depois que esse dinheiro vira privado, isso não tem nada a ver com o Estado, o Estado não tem que explicar."
Na CPI, Taques contestou essa tese com uma analogia: "Imagine um empresário que constrói uma ponte, recebe do Estado. O dinheiro passa a ser privado. Aí ele paga o presidente da comissão de licitação. Esse dinheiro é público ou privado? Isso é conversa fiada."
Posições divergentes dentro da PGE
Há um detalhe pouco comentado dentro da própria PGE. Em 24 de abril de 2024, apenas 14 dias após a assinatura do acordo de R$ 308 milhões, o procurador Luiz Alexandre Combat de Faria Tavares, hoje procurador-geral adjunto, manifestou-se num caso análogo envolvendo a mesma Oi. Disse que "a PGE não teria interesse em celebrar autocomposição para devolver os recursos" por "ausência de permissivo legal".
Num processo, procuradores celebraram acordo. No outro, com a mesma empresa e fundamento parecido, outro procurador recusou por falta de base legal. Combat foi convocado duas vezes para depor na ALMT. Não compareceu em nenhuma. Na primeira, alegou não ter sido notificado. Na segunda, informou indisponibilidade.
BR-163, REAG e PCC: o terceiro eixo da CPI
Aqui a CPI entrou em terreno novo. A concessão da BR-163, após o fracasso da Odebrecht, passou ao MT-PAR, sociedade de economia mista 100% do Estado. O MT-PAR criou um fundo de investimento para administrar os recursos da rodovia. Quem constituiu, administrou e geriu esse fundo foi a REAG.
A REAG, segundo a Polícia Federal, é a mesma empresa que, por meio de 40 fundos, lavava dinheiro do Primeiro Comando da Capital. Duas operações federais chegaram a essa conclusão: Compliance Zero e Carbono Oculto. O GAECO de São Paulo e a Receita Federal corroboram.
Pois bem. O Estado de Mato Grosso sacou R$ 447 milhões da Fonte 100 e depositou no fundo da REAG. E o dono da REAG, Luiz Carlos Moreira Lima, foi nomeado pelo governador para o Conselho de Administração da Nova Rota Oeste, a concessionária da BR-163. Como conselheiro, tem voto na definição dos investimentos, incluindo o destino de R$ 5,5 bilhões liberados pelo BNDES para a duplicação da rodovia.
Taques identificou o conflito: os artigos 156 e 66 da Lei das Sociedades Anônimas vedam que membros do Conselho de Administração tenham interesse pessoal nos negócios que o conselho decide. Moreira Lima saiu da REAG em 2026, quando o Banco Central decretou a liquidação da gestora, em 15 de janeiro.
Taques foi direto: "Não sou eu que estou dizendo que a REAG lava dinheiro do PCC. É a Polícia Federal, é a Receita Federal, é o GAECO do Estado de São Paulo."
Uma auditoria independente juntada na CVM em março de 2024 já alertava: "Direitos creditórios não contam com garantia, eliminação de risco, podendo, inclusive, ocorrer perda do capital investido."
A única resposta sobre esse eixo veio da senadora Margareth Buzetti durante a própria sessão. Ela afirmou que os R$ 447 milhões foram pagos aos bancos credores da antiga Rota Oeste no mesmo dia em que entraram no fundo, que o saldo seria zero e que o BNDES repassa conforme execução da obra, com apenas 30% desembolsado. Taques admitiu que não tinha essa informação. A CPI comprometeu-se a rastrear as "tranches" do BNDES.
Promotor natural: a disputa processual
Taques abriu ainda outra frente. O parecer do MPMT pela legalidade do acordo foi assinado por um subprocurador-geral designado pelo procurador-geral de Justiça. Acontece que a Vara de Ações Coletivas de Cuiabá tem quatro promotores previamente lotados, obedecendo ao princípio do promotor natural.
A base para a designação do subprocurador é uma lei estadual alterada entre 2022 e 2023, que atribui ao PGJ competência para se manifestar em ações contra governadores e ex-governadores. Taques sustenta, citando decisão do ministro Alexandre de Moraes, que constituições estaduais podem disciplinar procedimento, mas não processo. Seria inconstitucional.
O juiz da Vara deu 72 horas para o Ministério Público se manifestar sobre a impugnação. Se acolhida, o parecer que o governo comemorou como "vitória" pode perder validade.
O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato, registrou o contraponto técnico: a lei é presumivelmente constitucional enquanto não for declarada inconstitucional. Mas o debate está aberto e depende da decisão do juízo.
Os pontos inéditos levados à CPI
Parte do que Taques apresentou ao Senado já circulava no debate público em Mato Grosso. Outra parte apareceu pela primeira vez nesta sessão. Quatro temas do depoimento não constavam das manifestações anteriores do governador, dos procuradores na ALMT, do parecer do MPMT nem das decisões do TCE: A dupla posição de Luiz Carlos Moreira Lima como sócio da REAG e conselheiro da Nova Rota Oeste, com poder sobre investimentos de R$ 5,5 bilhões do BNDES. O fato de a REAG, apontada pela PF como ligada ao PCC nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto, ter gerido o fundo que recebeu R$ 447 milhões do Estado. A contestação ao princípio do promotor natural na ação popular, que questiona a validade do parecer do MPMT. A informação de que os procuradores inicialmente designados e a especialista requisitada não assinaram o acordo, e que o cálculo não foi feito pelo Departamento de Cálculo da PGE.
Estes temas entraram imediatamente no radar da CPI e o relator anunciou requerimentos específicos para apurá-los.
O contexto político e os próximos passos
O relator Alessandro Vieira abriu o depoimento com um aviso: Taques é pré-candidato ao Senado, assim como Mendes. "Existe um contexto de disputa política, o que não invalida, evidentemente, o depoimento, o que não invalida a coleta de dados e a contribuição relevante."
A senadora Buzetti perguntou a Taques se havia mágoa pela derrota eleitoral de 2018. Taques respondeu que entregou a faixa, reconheceu as urnas e que "mágoa se resolve com psicólogo, com caminhada". Buzetti lembrou que seis secretários de Taques foram presos durante seu mandato. Ele respondeu que passou cinco anos sendo investigado em quinze inquéritos, todos arquivados com pedido dos delegados, manifestação do MP e decisão judicial. "Eu sou o único ex-governador do Brasil que não responde a nenhum inquérito, nenhuma ação penal, nenhuma ação de improbidade."
O senador Wellington Fagundes (PL-MT), que acompanha o caso de perto, pediu provas concretas e disse que "não pode ficar apenas na discussão política". Perguntou se os documentos seriam formalmente entregues à CPI. O relator confirmou que sim e anunciou requerimento para rastrear os recursos do acordo da Oi, do fundo da REAG e dos repasses do BNDES à Nova Rota Oeste.
A CPI tem o que Taques não tem: poder de quebrar sigilo bancário. O relator sinalizou que pretende usá-lo.
Taques anunciou que protocolará representações no Conselho Nacional do Ministério Público e no Conselho Nacional de Justiça. A ação popular segue tramitando em Cuiabá. O juiz ainda não decidiu sobre o pedido de arquivamento do MPMT e sobre a impugnação ao promotor natural.
O senador Alessandro Vieira encerrou com um registro: naquele mesmo dia, a Polícia Federal realizou nova operação contra o grupo Fictor, ligado ao Banco Master, com prisões e buscas envolvendo CNPJs vinculados ao Comando Vermelho. "A gente tem que compreender o que é crime organizado. Não é só aquela figura armada na periferia. É muito mais importante essa estrutura complexa de lavagem de dinheiro e de corrupção de agentes públicos."




