Em recado aos representantes do Centrão no governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a seus ministros na reunião desta terça-feira (26/8), que quem não se sentisse à vontade para defender a gestão publicamente poderia pedir para sair, de acordo com aliados ouvidos pelo GLOBO. Pela primeira vez, Lula também afirmou publicamente que espera ter como principal adversário na disputa pelo Palácio do Planalto no ano que vem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e não um integrante da família Bolsonaro.
A avaliação na reunião ministerial ocorre um dia após o evento de aniversário do partido de Tarcísio. Na ocasião, o presidente da sigla, o deputado Marcos Pereira (SP), fez um aceno público à possibilidade de o governador paulista disputar o Planalto. Tarcísio, por sua vez, evitou citar a eleição, mas falou sobre "derrotar o improvável".
Além disso, Lula citou o presidente do PP, Ciro Nogueira, oposicionista e apoiador de Jair Bolsonaro. Lula reclamou do que chamou de movimentação do dirigente partidário para ser candidato a vice de Tarcísio. Ao falar sobre o tema, o presidente também se queixou do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e disse aos ministros que não gosta dele.
Nesta terça, Lula disse que todos os ministros devem estar a par das entregas do governo como um todo, não apenas de suas áreas. O petista se queixou de que as legendas do Centrão fazem eventos em que as críticas ao governo são constantes e que os ministros desses partidos não fazem nenhuma fala pública de contraponto.
Essa situação ocorreu, por exemplo, na semana passada, quando União Brasil e PP fizeram um evento para marcar o lançamento da federação entre as duas legendas.
No início da reunião ministerial desta terça, todos os ministros receberam o boné nacionalista azul com os dizeres "O Brasil é dos Brasileiros", que tem sido usado por governistas desde fevereiro, em contraposição ao boné vermelho Make America Great Again (faça a América grande de novo, em tradução livre) usado por apoiadores de Trump nos Estados Unidos e no Brasil por bolsonaristas, a exemplo de Tarcísio de Freitas. Também receberam um livreto com cifras de programas do governo e um QR code para um website de uma campanha das ações e entregas da gestão de Lula.
A fala do presidente ocorreu no final do encontro. De acordo com presentes, Lula falou diretamente sobre a escalada que União Brasil e PP têm dado em direção a uma tentativa de desembarque dos cargos do governo. Lula disse na reunião que os ministros dessas siglas não eram escolha dos partidos, e sim do próprio presidente, mas quem quisesse sair do cargo, precisava falar.
Os ministros do Esporte, André Fufuca (PP), e do Turismo, Celso Sabino (União Brasil), estavam no encontro da semana passada, e o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), participou nesta segunda-feira do evento da sigla em que Marcos Pereira acenou a Tarcísio. Nas duas ocasiões, o governador de São Paulo esteve presente.
Publicamente, no entanto, Tarcísio tem evitado mencionar a possibilidade de disputar o Planalto e diz que seus planos são concorrer à reeleição em São Paulo.
Ministros ligados ao Centrão reconhecem que hoje a situação é delicada e parte do grupo diz que vai evitar, a partir de agora, participar dos eventos organizados por suas siglas que tenham um claro teor de oposição ao governo. A ala do Centrão que tem cargos no governo, no entanto, descarta pedir desfiliação e ressalta que vai apoiar Lula de qualquer maneira em 2026. O discurso é que os partidos são grandes, diversos, e já estão acostumados a ter membros com diferentes posições políticas.