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Política Terça-feira, 24 de Março de 2026, 10:40 - A | A

Terça-feira, 24 de Março de 2026, 10h:40 - A | A

Ata do Copom aponta incerteza e deixa próximos cortes de juros indefinidos

Documento detalha início do ciclo de cortes em meio a incerteza global e inflação ainda acima da meta

Da Redação

O Banco Central publicou nesta terça-feira a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano e indicou que os próximos passos da política de juros seguem em aberto, em um cenário marcado por incerteza elevada e riscos ampliados para a inflação.

O documento detalha que o início do ciclo de cortes foi considerado apropriado após o longo período de juros elevados começar a produzir efeitos sobre a economia, mas ressalta que o ambiente atual — especialmente após o acirramento dos conflitos no Oriente Médio — tornou mais difícil identificar tendências claras para a inflação e a atividade.

A ata também deixa claro que não há sinalização prévia sobre o ritmo das próximas decisões. A magnitude e a duração do ciclo de ajuste dos juros serão definidas ao longo do tempo, conforme novas informações forem incorporadas, em um cenário que, segundo o BC, ainda apresenta sinais mistos e elevada incertez.

"A incerteza com relação ao cenário externo se elevou consideravelmente. Além do agravamento das tensões geopolíticas, novas incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos colaboraram para tornar esse cenário ainda mais incerto", destacou o comitê.

Segundo o Copom, o cenário externo se deteriorou com o avanço das tensões geopolíticas, elevando a volatilidade nos mercados e os preços de commodities, o que exige maior cautela por parte de países emergentes. Ao mesmo tempo, novas incertezas relacionadas à política econômica dos Estados Unidos também contribuíram para um ambiente global mais adverso.

"O Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises“, diz um trecho da ata.

O BC considera que essa decisão é " é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras".

No cenário doméstico, a avaliação é que a atividade econômica segue em trajetória de moderação, com desaceleração mais evidente no fim de 2025, especialmente em setores mais sensíveis às condições financeiras. Esse movimento, segundo o BC, reflete os efeitos defasados da política monetária restritiva e é parte do processo necessário para conter a inflação.

Apesar disso, o mercado de trabalho continua resiliente, com desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento dos rendimentos acima da produtividade, o que pode pressionar os preços, sobretudo no setor de serviços.

A ata mostra que a inflação tem apresentado algum arrefecimento recente, tanto no índice cheio quanto nas medidas subjacentes, mas segue acima da meta. As expectativas para os próximos anos permanecem desancoradas: estão em 4,1% para 2026 e 3,8% para 2027, segundo a pesquisa Focus.

Nas projeções do próprio Banco Central, a inflação deve ficar em 3,9% em 2026 e em 3,3% no terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante para a política monetária — ainda acima do centro da meta de 3%.

O Copom destaca que, em um ambiente de expectativas desancoradas, o custo de trazer a inflação de volta à meta tende a ser maior, exigindo uma política monetária mais restritiva por mais tempo.

O balanço de riscos para a inflação, que já era considerado elevado, se intensificou após o início dos conflitos no Oriente Médio. Entre os fatores de alta, o BC cita a possibilidade de desancoragem mais prolongada das expectativas, a persistência da inflação de serviços e impactos cambiais. Já entre os riscos de baixa, estão uma desaceleração mais forte da economia, uma retração global mais intensa e a queda nos preços de commodities.

O documento também traz um alerta em relação ao cenário fiscal. O Banco Central afirma que incertezas sobre a sustentabilidade da dívida pública, o aumento do crédito direcionado e eventuais recuos em reformas estruturais podem elevar a taxa de juros neutra da economia, reduzindo a eficácia da política monetária e aumentando o custo do processo de desinflação.

Diante desse quadro, o Copom avaliou que a redução de 0,25 ponto percentual foi a mais adequada neste momento, mantendo o compromisso com a convergência da inflação à meta.

Na avaliação do economista-chefe da XP, Caio Megale, a ata trouxe poucas novidades em relação ao comunidade divulgado após a reunião, mas reforçou a leitura de que o Banco Central deve dar continuidade ao ciclo de cortes de juros, ainda que sem compromisso com o ritmo.

— O Copom parece confiante de que o ciclo de “calibração” continuará adiante, com a “magnitude e duração” dependendo da evolução do cenário, em particular do conflito no Oriente Médio — avalia Megale.

Para o economista, o ponto central da ata continua sendo a incerteza relacionada aos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre preços de energia e commodities.

— O Copom afirmou que os “riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio”. O Copom discutiu uma mudança no balanço de riscos, provavelmente para cima, em função do aumento dos preços de energia, mas “julgou apropriado seguir com serenidade” — destaca o economista-chefe da XP.

No cenário-base apresentado por Megale, o ciclo de queda da Selic deve continuar nas próximas reuniões, com cortes de até 0,50 ponto percentual, levando a taxa a 12,75%. Ainda assim, ele ressalta que há riscos de deterioração do cenário inflacionário, especialmente caso persistam as pressões vindas do petróleo, do câmbio e das expectativas, o que pode levar a um ritmo mais moderado de redução dos juros.

A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, também avalia que a mensagem central da ata permanece mais branda e sem grandes mudanças em relação ao comunicado da semana passada. Segundo ela, o Copom indiciou continuidade do processo de ajuste dos juros e deixou claro que o debate na reunião girou em torno da intensidade do corte — entre 0,25 e 0,50 ponto percentual —, e não sobre a decisão de iniciar o ciclo.

— Motivação para corte foi a convicção da desaceleração da atividade. Comenta dos dados melhores do Q1 (primeiro trimestre), mas não dá maiores sinais quanto ao grau de compatibilidade com o cenário base — diz Victal.

No caso da inflação, a economista ressalta que a ata reconhece piora nas expectativas após o início do conflito, mas sugere que o impacto do choque de petróleo foi mais limitado do que se temia.

— Para avaliação de inflação, tudo no passado, e destaca a piora de expectativas pós-conflito. Para projeção, usou as premissas usuais. Portanto, impacto do choque de petróleo foi menor que o esperado. No todo, é uma ata que corrobora nosso cenário base atual de corte de 25bps em abril, e que o comitê tem uma pré-disposição a acelerar o ritmo, dependendo da evolução do cenário externo. Seguimos projetando um ciclo curto, com terminal de 13% devido ao diagnóstico de processo de desinflação mais desafiador — destaca.

Para o conselheiro da Ancord, Pablo Spyer, a ata reforça a leitura de que o BC segue o modo de cautela, mas sem indicar mudança de direção na política monetária. Segundo ele, o documento não trouxe sinais de interrupção do ciclo de cortes nem endureceu a comunicação sobre a inflação.

Na avaliação de Spyer, o Copom manteve a lógica de "calibração" dos juros, o que, na prática, preserva o viés de queda da Selic. Ele destaca que o texto final da ata indica mais flexibilidade do que restrição, com o Banco Central deixando claro que seguirá ajustando os juros conforme a evolução dos dados.

— O trecho final da ata é emblemático porque mostra um Banco Central ganhando tempo, e não freando o processo de flexibilização. A palavra-chave ali é flexibilidade, não restrição. O Copom está dizendo que vai seguir ajustando os juros com base nos dados, acompanhando a evolução do cenário, e não que pretende segurar os juros por mais tempo de forma preventiva — afirma.

Para o especialista, uma ata mais conservadora teria trazido sinais explícitos de possível pausa no ciclo, maior ênfase no risco de inflação persistente ou condicionantes mais duros para novos cortes, o que não ocorreu. Por isso, ele classifica o documento como pragmático e, na margem, levemente "dovish", apesar do discurso cauteloso.

— Em resumo, a ata foi pragmática e relativamente tranquila. Reconheceu os riscos do cenário, especialmente no ambiente externo, mas não mudou o plano de voo da política monetária. Por isso, pode ser interpretada como ligeiramente dovish na margem, apesar do discurso de cautela característico de um Banco Central que ainda lida com inflação acima da meta — pontua Spyer.

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