O Banco Central (BC) divulgou na última quinta-feira (26/3) o Relatório de Política Monetária (RPM) de março. Na apresentação do RPM, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, falou sobre repercussão das altas taxas de juros no consumo das famílias e na atividade das empresas.
A maioria da população brasileira acessa o mercado de crédito por linhas emergenciais, a mais importante e mais cara a do cartão de crédito. Isso impõe, afirma Galípolo, um custo maior que 100% ao ano em termos de taxas de juros. Reconhecendo ainda que esses juros são punitivos.
A moderação do presidente do BC, falando em custo maior de 100%, não esconde a verdade de percentuais muito acima disso. Patamares de 430% dos cartões ou de 140% no cheque especial são a realidade das pessoas que precisam recorrer a esse tipo de crédito.
Inadimplência da maioria relacionada ao cartão de crédito
Mas a inadimplência da maioria das pessoas no país está relacionado ao cartão de crédito, reconhece Galípolo. Segundo o presidente do BC, há 101 milhões de clientes de cartão de crédito no país.
A melhora na renda e no emprego indicada nos índices recentes, e reforçada no RPM, não afasta a percepção de que o orçamento das famílias segue pressionado, com dificuldade para fechar as contas do mês.
“A estagnação do consumo no segundo semestre (de 2025) ocorre a despeito da ampliação da renda disponível bruta das famílias e pode estar associada ao aumento do endividamento e do comprometimento de renda com o serviço da dívida, assinala o relatório”
Portanto, é o próprio BC que reconhece que as taxas de juros acompanham o movimento da Selic. Agora quem estabelece a taxa básica da economia (Selic) é exatamente o Comitê de Política monetária (Copom), que reúne a diretoria do BC com Galípolo na presidência do colegiado.
Transferência de renda para o sistema financeiro
A Selic manteve-se em 15% desde junho de 2025, seguidamente entre as duas mais altas taxas básicas entre os bancos centrais de todo mundo.
O Copom no último dia 18 fez uma redução ínfima de 0,25 pontos percentuais da Selic.
Em termos macroeconômicos, o crédito ao custo exorbitante praticado, não apenas recente, mas em décadas, resultou em um crescimento medíocre para o país, devido os juros exorbitantes, visto que é essencial crédito ao custo compatível com o que deveria ser para gerar desenvolvimento ao país e não o parasitismo atual dos bancos.
A manifestação do presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), José Reginaldo é esclarecedora: “A gente pode dizer, com todas as letras, que não existe neutralidade na política de juros no país. Isso é uma escolha, de política econômica, de proteger o capital financeiro e desproteger o desenvolvimento do país. E isso tem nome: transferência de renda para o sistema financeiro, do povo para o sistema financeiro”.
Redução da Selic em 0,25 pontos percentuais “é incapaz de reverter os prejuízos à economia”, também repercutem os empresários da indústria através de Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
“A inflação está em franca desaceleração e as expectativas de mercado para a alta dos preços seguem dentro do intervalo de tolerância da meta. Isso, por si só, já justificaria queda mais acentuada da taxa básica de juros. Essa cautela do Banco Central ainda é excessiva e seguirá penalizando ainda mais nossa economia”, diz Alban.




